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| por Moacir Japiassu |
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09/09/2010 09:24 POEMA DE NEI DUCLÓS
INSURGÊNCIA
Fui mandado de volta à poesia
Pelo Destino vestido para a guerra
Era uma ordem na véspera da bala
Pai jurado em dia de promessa
Parecia moço e não queria a glória
Nem o rebento morto na vitória
Sangue é inútil, mas jamais a musa
Escreva sobre o sol e a primavera
Disse entre pólvora e cartuchos
No lugar da luta, herdei o seu relógio
Fui a pé, para que o poema tarde
Cultivei dor na madrugada em claro
Joguei no rio as folhas do diário
Parei expedições sem passaporte
Quebrei moinhos com meu sabre
Não me conformo e ligo o rádio
Adivinho o rescaldo da batalha
Consulto sinais dos que tombaram
Talvez alguém encontre neste ermo
Motivo para viver longe do front
Em serões de piano e pé de valsa
Livro não escolhe a sua hora
Verso não evita o tempo torpe
No batismo selei a minha sorte Moacir Japiassu | comentários(0)
09/09/2010 09:21 MACUNAÍMA
(Por Dora Kramer, no Estadão.)
Só porque é popular uma pessoa pode escarnecer de todos, ignorar a lei, zombar da Justiça, enaltecer notórios malfeitores, afagar violentos ditadores, tomar para si a realização alheia, mentir e nunca dar um passo que não seja em proveito próprio?
Depende. Um artista não poderia, sequer ousaria fazer isso, pois a condenação da sociedade seria o começo do seu fim. Um político tampouco ousaria abrir tanto a guarda.
A menos que tivesse respaldo. Que só revelasse sua verdadeira face lentamente e ao mesmo tempo cooptasse os que poderiam repreendê-lo, tornando-os dependentes de seus projetos dos quais aos poucos se alijariam os críticos, por intimidação ou desistência.
A base de tudo seria a condescendência dos setores pensantes e falantes, consolidada por longo tempo.
Para compor a cena, oponentes tíbios, erráticos, excessivamente confiantes, covardes diante do adversário atrevido, eivados por ambições pessoais e sem direito a contar com aquele consenso benevolente que é de uso exclusivo dos representantes dos fracos, oprimidos e ignorantes.
O ambiente em que o presidente Luiz Inácio da Silva criou o personagem sem freios que faz o que bem entende e a quem tudo é permitido - abusar do poder, usar indevidamente a máquina pública, insultar, desmoralizar, sem que ninguém se disponha ou consiga lhe pôr um paradeiro - não foi criado da noite para o dia.
Não é fruto de ato discricionário, não nasceu por geração espontânea nem se desenvolveu apenas por obra da fragilidade da oposição. É produto de uma criação coletiva.
Da tolerância de informados e bem formados que puseram atributos e instrumentos à disposição do deslumbramento, da bajulação e da opção pela indulgência. Gente que tem pudor de tudo, até de exigir que o presidente da República fale direito o idioma do País, mas não parece se importar de lidar com gente que não tem escrúpulo de nada.
Da esperteza dos arautos do atraso e dos trapaceiros da política que viram nessa aliança uma janela de oportunidade. A salvação que os tiraria do aperto no momento em que já estavam caminhando para o ostracismo. Foram todos ressuscitados e por isso são gratos.
Da ambição dos que vendem suas convicções (quando as têm) em troca de verbas do Estado, sejam sindicalistas, artistas, prefeitos ou vereadores.
Da covardia dos que se calam com medo das patrulhas.
Do despeito dos ressentidos. Moacir Japiassu | comentários(0)
02/09/2010 09:05 ÚLTIMA PÁGINA DO JB
(Por Joaquim Ferreira dos Santos, O Globo, 30/8/10)
Descansa em paz "JB" que amanhã pela manhã, quando chegar às bancas a edição do dia 31 de gosto de 2010, esgota seu deadline neste vale de resmas de papel, e alguém vai gritar o definitivo "Parem as máquinas" num cantinho malassombrado da Avenida Brasil 500.
Penteia o teu último nariz de cera, "JB", pede ao Joaquim Campelo para copidescar uma pirâmide invertida que está na página três, diz ao Gabeira para pesquisar a capa que o Alberto Dines fez do AI-5 - e desce a página para o túmulo dos grandes jornais.
Leva um abraço com bafo de uísque para o Zózimo Barroso do Amaral, sempre circulando entre as mesas, já sem o smoking da festa de ontem à noite, e pedindo pelo amor de Deus uma notinha. O foca dizia qualquer coisa que tinha acabado de ver na rua, para que o espírito caminhante de Zózimo sossegasse o facho e ele pudesse escrever a matéria.
No dia seguinte, a notinha, um quase nada, uma bolha de sabão, estava impressa no jornal com um charme que enfeitiçaria dezenas de colunistas em gerações futuras, todos frustrados em tentar a mesma leveza e humor sofisticado, mas definitivamente sem conseguir o mesmo buquê do Zózimo.
Descansem em paz o velho atrasador de jornal, o calhau, o bandejão, o Brito's, o plantão na porta do embaixador sequestrado, e também o ascensorista Vovô, o senhor negro encaixotado o dia inteiro em sua jaula de alumínio da Atlas e que quando passava pelo andar da redação anunciava "Parque de diversões".
Seus antepassados tinham sido escravos, ele passara a infància capinando na roça, e não entendia que aquela gente de temo, jogando bolinha de papel amassado umas nas outras, pudesse estar trabalhando.
Acabou de rodar a última edição, "JB", não se ouvem mais as Remington, mas a fumaça dos cigarros fumados por todos aqueles anos ainda toma o ambiente. Chegou a última notícia, e ela diz que é hora de tomar a saideira naquele sujinho na Leopoldina.
Descansa em paz pescoção das sextas-feiras, quando a turma do Esporte passava uma lista de contribuições pelas demais editorias e abria um garrafa de White Horse para que ficasse mais suave cavalgar noite adentro no dorso selvagem de títulos de três de 13.
Descansem em paz Oldemário Touguinhó, LuarIindo Ernesto, nomes mais fabulosos da História do jornalismo brasileiro, superiores ao de Oderf1a Almeida, o Alfredo ao contrário, que também já se foi e nunca teve a felicidade de trabalhar no "JB" da Condessa, da Cleusa Maria, da Susana Schild, da Norma Couri e de todas aquelas avançadíssimas moças do
Caderno B, num tempo em que redação era coisa de macho.
Descansa em paz, CarIinhos de Oliveira, cronista atormentado de três textos semanais, muitos escritos na varanda do Antonio's, muitos de olho em alguma cocota que passava e, como já era comum no Leblon, antes mesmo de Herbert Vianna anunciar no Paralamas, elas não olhavam para CarIinhos porque, embora gênio, o cronista usava óculos.
Descansa em paz o dia em que a condessa recebeu a figura augusta do general Costa e Silva. Depois de atravessar com o sujeito pela redação, a condessa disse que no dia seguinte seria publicada uma reportagem sobre a visita.
"Tem elogio?", perguntou o general. A dona do jornal desconversou. Disse que era uma reportagem descritiva, como são as boas reportagens.
O general dispensou: "Se for assim, não precisa, eu gosto mesmo é de elogio."
Descansem em paz todas as histórias folclóricas de redação, todos os estagiários que foram encarregados de pegar a calandra e entregar ao editorialista Wilson Figueiredo. Soltem-se todos os balões que o Alberto Ferreira, o chefe da fotografia, autor da foto da bicicleta do
Pelé, esticava no chão do laboratório.
Chegou a hora triste de pautar um repórter para fazer a ronda dos cemitérios e descobrir que o morto de hoje é o próprio jornal. Escreva-se o funéreo com a elegância que formou várias gerações de grandes jornalistas e ajudou a
fundar o espírito de uma cidade. Sem pieguismo, que os neoconcretistas não vão gostar.
Pau na máquina. Fecha com a foto da freira caída na frente do ônibus, do Evandro Teixeira.
Descansem em paz Wilson Coutinho, a lauda de 30 linhas e 72 toques, e mais ainda Mara Caballero, a diagramação sem fios do Amilcar de Castro, os disfarces de mendigo do Tim Lopes, o elefantinho, o ele da primeira página, os classificados de troca de casais, os velhos homens de imprensa, as estagiárias da pesquisa, a reportagem geral com 53 repórteres e o especial do caderno B em que Lena Frias mostrou para toda a Zona Sul que do outro lado do túnel havia outra cidade cultural, o Black Rio.
Descansem em paz a matéria com cópia em papel-carbono, o salário ambiente, o suplemento literário, o diretor que assediou a secretária e provocou uma passeata na Rio Branco, e também o dia em que o editor jogou para o alto o juramento que fez sobre a Bíblia de Gutenberg. Ele não resistiu e colocou na primeira página de uma segunda-feira a foto daquela repórter da Geral que tinha o mais belo bumbum da redação e fora f1agrada, de biquíni, em Ipanema, em toda a exibição orgulhosa de seu trunfo, pelo fotógrafo que
fazia a inevitável matéria sobre o movimento das praias no domingo.
Descansa em paz a lenda de que se ganhava pouco mas era divertido.
É hora de descer a última página e, como nos artigos de Dom Marcos Barbosa, reunir todos os que se formaram naquela redação para dizer muito obrigado e amém.
P.S: Não esquece de chamar na primeira.
E-mail: joaquim.santos@oglobo.com.br Moacir Japiassu | comentários(0)
02/09/2010 09:03 GÊNERO X SEXO E FREI X FRADE
Por José Augusto Carvalho(*)
O jornal A GAZETA de Vitória (ES) do dia 24-08-10, na p. 16, ostenta, numa reportagem sobre provas de um concurso público, a fotografia de um grupo de mulheres segurando um cartaz que dizia: "Mulheres X TAF PM/ES 2010 - Contra discriminação de gênero".
Descobri que TAF significa "Teste de aptidão física", mas demorei a perceber que não se tratava de um protesto feminino contra a discriminação de gêneros textuais, ou literários ou gramaticais. Cheguei a pensar que se tratava de meninas intelectuais que se revoltavam contra a separação entre o lírico e o dramático, numa tentativa de inovar a teoria literária.
Só depois de ter lido metade da reportagem é que me dei conta de que as moças da fotografia estavam confundindo gênero com sexo, numa subserviência cultural ao inglês, que diz "gender" significando tanto gênero quanto sexo, segundo o Webster's Dicionário Inglês-Português, de Antônio Houaiss (s.v.), editado pela Record.
Os bons dicionários de língua (Houaiss, Aurélio, Aulete, por exemplo) não registram gênero como sinônimo de sexo. Os dicionários de sinônimos, como o de Francisco Fernandes, registram gênero como sinônimo possível de: casta, espécie, raça, família, ordem, classe, variedade; qualidade, sorte, espécie; modo, maneira, jeito. Nunca como sinônimo de sexo.
Não se trata de gramatiquice, mas de clareza e precisão de linguagem.
Gênero é distinção gramatical; sexo é distinção semântica. Um nome do gênero masculino pode designar alguém do sexo feminino, como, por exemplo, mulherão (que, aliás, embora masculino, designa mulher extremamente feminina). Há nomes ("sobrecomuns") do gênero masculino que designam pessoas tanto do sexo masculino quanto do sexo feminino (como, por exemplo, o cônjuge, o apóstolo, o algoz).
Também há nomes ("sobrecomuns") do gênero feminino que designam pessoas tanto do sexo masculino quanto do sexo feminino (como, por exemplo, a vítima, a testemunha, a pessoa). Há nomes de seres que têm um gênero único ("epicenos"): Cobra e águia, por exemplo, são sempre do gênero feminino; jacaré e besouro são sempre do gênero masculino.
Independentemente de sexo. Se quisermos designar o sexo desses animais, usamos a expressão "fêmea" ou "macho", mas o nome continuará com um gênero único: a cobra macho, a águia macho, o jacaré fêmea, o besouro fêmea. O gênero existe mesmo quando não há motivação sexual, como o gênero das coisas (mesa, casa, algodão, álcool...). Será que é tão difícil assim utilizar adequadamente as palavras "gênero" e "sexo" sem confundi-las?
Outro erro evitável encontrei numa manchete de jornal: "Frei completa 50 anos de sacerdócio". A palavra "frei" é forma apocopada de "Freire". Apócope é o nome que se dá à supressão de sons no final de um vocábulo, como "são" (santo), "grã/grão" (grande), "mui" (muito), "recém" (recente), etc.
Muitos nomes que sofreram apócope só se usam diante de outros nomes, nunca isoladamente. Assim, dizemos que "São Pedro é um grande santo" e não que "São Pedro é um grande são". Dizemos grão-duque, grã-fino, Grã-Bretanha. Mas não podemos dizer que "O Brasil é grã".
O feminino de "Freire" é "freira". Como "Freire" não se usa mais em sua articulação integral, "freira" passou a ser o feminino vicário (substituto) de "frade". E "frade" passou a ser usado em lugar de "Freire". A forma "frei" só se usa antes de nome, nunca isoladamente. Dizemos que "Frei Pedro Palácios foi um bom frade" e não "um bom frei".
O jornal errou na sua manchete. É pena... A imprensa, sobretudo a imprensa escrita, deveria zelar pela boa norma e pela precisão da linguagem...
(*)Segundo o Dicionário de Tradutores Literários no Brasil, José Augusto Carvalho, mineiro de nascimento e capixaba por adoção, é escritor, tradutor, jornalista e professor universitário. Nasceu em Governador Valadares, MG, em 1940, filho de pai português e de mãe brasileira. Já viveu em Portugal, França e Alemanha, mas passou a maior parte de sua vida no Espírito Santo, onde reside atualmente.
Bacharel e licenciado em Letras Neolatinas, também é mestre em Linguística pela Unicamp e doutor em Letras pela USP. Atua principalmente como professor, mas traduz textos do francês, inglês e italiano desde a década de 1970 . Moacir Japiassu | comentários(0)
26/08/2010 10:27 NOTA DEZ PARA ROBERTO FREIRE
NÃO AO "DEDAZO" DE LULA
Nas eleições de 1970, em pleno "milagre econômico", o partido do regime militar teve uma vitória arrasadora. Os eleitores votaram maciçamente na antiga Arena e por muito pouco o MDB, o partido de oposição criado por imposição da ditadura, não se autodissolveu. Estava em curso um projeto de "mexicanização" do país.
Na terra de Zapata e Pancho Villa, um "dedazo" do presidente da República indicava o candidato oficial e este era eleito por esmagadora maioria. E assim o Partido Revolucionário Institucional (PRI) se mantinha no poder, graças ao clientelismo, à corrupção e ao aparelhamento do Estado.
Com as devidas ressalvas, quatro décadas depois, estamos diante de situação semelhante. Um "dedazo" do presidente Lula, amparado por seus índices de popularidade e pelo prestígio popular de seu governo, ameaça transformar o maior patrimônio político da nação -o voto direto, secreto e universal- em mero ritual de legitimação da sucessão presidencial.
Sim, porque há dois anos o presidente da República abusa de todos os meios à sua disposição e de todas as pessoas sob sua influência para fazer o seu sucessor. Lula não escolheu nenhum líder petista calejado nas lutas políticas, como os petistas José Dirceu ou Antônio Palocci, que foram expelidos de seu governo por motivos éticos.
Muito menos um aliado, como o ex-ministro da Integração Nacional Ciro Gomes, cuja legenda lhe foi negada pelo PSB a pedido do próprio presidente da República. Optou por uma auxiliar direta, sem projeto político próprio ou experiência eleitoral, mas capaz de cumprir à risca suas determinações: a ex-ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff.
Ex-militante da VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária - Palmares), Dilma nunca disputou uma eleição para chegar ao Executivo, jamais exerceu um mandato eletivo no Legislativo.
Chegou ao Palácio do Planalto por integrar a tecnoburocracia petista, na qual se destacou por coordenar com mão de ferro a equipe ministerial. Revelou-se o nome mais adequado para comandar um modelo de governo verticalizado, centralizador e dirigista-estatal.
Encarna um projeto de poder de longo prazo, alavancado pelo aparelhamento do Estado brasileiro, pela adoção de políticas sociais assistencialistas, por práticas eleitorais de clientela e alianças com velhas oligarquias.
No governo Lula, Dilma foi uma das responsáveis pela adoção de um novo tipo de intervenção do Estado na economia, graças a um pacto perverso entre o governo, com suas empresas públicas e fundos de pensão, e as grandes empreiteiras, grandes grupos exportadores e alguns bancos privados.
O risco de "mexicanização" do país tem nessa conexão entre o setor público e o grande capital monopolista sua mola-mestra, daí a origem da campanha eleitoral milionária do PT. Mas isso não para por aí. A aliança entre o PT e o PMDB, partido que controla o Congresso Nacional, é uma simbiose entre o aparelhamento do Estado e o clientelismo político, cuja inédita capilaridade alcança todos os municípios do brasileiros. É outra semelhança com o velho PRI.
O PT manipula os sindicatos, enquanto o PMDB controla a velha política municipal. Como enfrentar, então, essa ameaça?
Para enfrentar os problemas do câmbio do país, temos que desatrelar o governo dos bancos, das empreiteiras e dos oligopólios. A única maneira de evitar a "mexicanização" é a alternância de poder, ou seja, a eleição de um oposicionista para a Presidência da República.
No meu caso, apoio José Serra, um político capaz de barrar uma estratégia do presidente Lula para manter o PT no poder central pelas próximas décadas.
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ROBERTO FREIRE, advogado, é presidente do PPS (Partido Popular Socialista e candidato a deputado federal por São Paulo. Foi deputado federal e senador pelo PPS-PE. Moacir Japiassu | comentários(0)
26/08/2010 10:20 VEGANISMO
(Por Eduardo Almeida Reis)
Chelsea Clinton – E o produto do amor de Hilary por Bill Clinton, quem diria!, resultou vegan. Vocês sabem o que é vegan? Se não sabiam consolem-se comigo, que fui obrigado a recorrer à Wikipédia quando li sobre o veganismo de Chelsea, 30, na matéria de seu casamento com Mark, 32, banqueiro de confissão israelita.
Em 1944, Donald Watson (1910-2005) e mais seis pessoas, rompidas com a The Vegetarian Society por diferenças ideológicas, juntaram as três primeiras letras e as duas últimas de vegetarian para encontrar o termo que as definisse: vegan. Em português é vegano(a), adepto(a) do veganismo.
Os veganos boicotam qualquer produto de origem animal, alimentar ou não, além dos produtos que tenham sido testados em animais. Usam os termos “animais não-humanos” ou “seres sencientes” para cobaias, bois, macacos & cia. Não é dieta vegetariana, mas uma ideologia baseada nos direitos animais, que luta por sua inclusão na sociedade. Pelejei com vacas e galinhas durante séculos e nunca soube que explorava animais sencientes.
Peles, couro, lã, seda, camurça e outros materiais de origem animal, bem como pérolas, plumas, penas, ossos, pelos, marfim etc., são desprezados porque implicam a morte e/ou a exploração dos animais que lhes deram origem. Veganos só vestem tecidos de origem vegetal – algodão, linho & outros – ou sintéticos: poliéster e assemelhados.
São vegetarianos estritos, ou seja, não comem carnes, gelatina, laticínios, ovos, mel e outros alimentos de origem animal. Sua dieta é composta de cereais, frutas, legumes, vegetais, hortaliças, algas, cogumelos e quaisquer outros produtos, industrializados ou não, desde que não contenham ingredientes de origem animal. Não usam medicamentos, cosméticos e produtos de higiene e limpeza que tenham sido testados em animais, nem tomam vacinas ou soros, mas podem violar os princípios veganos em casos de emergência. Presumo que, picados por uma cascavel, não recusem o soro anticrotálico.
Boicotam circos com animais, rodeios, vaquejadas, touradas e jardins zoológicos que implicam escravidão, posse, deslocamento do animal do seu habitat. Não caçam, não promovem nenhum tipo de pesca e boicotam qualquer “esporte” que envolva animais não-humanos. Devem adorar futebol americano ou inglês, basquete, vôlei, boxe, maratona e quetais. O Dia Mundial Vegano é festejado em 1º de novembro e o doutor Arnaldo Madruga me fará o favor de classificar o veganismo nos conformes da moderna psiquiatria, que da antiga não constava, pois começou em 1944. Apiado-me do Bill; pobre Hillary Clinton! Moacir Japiassu | comentários(0)
19/08/2010 09:53 RISCO AUTORITÁRIO
(Por Bolívar Lamounier)
Quem examinar o quadro brasileiro neste momento poderá estranhar minha preocupação com efeitos possivelmente mexicanizantes e autoritários do presente processo eleitoral. Mas política, para invocar o mais gasto dos chavões, é como nuvem. As formas que ela está assumindo hoje poderão não se repetir daqui a seis meses, um ano ou dois anos.
“Mexicanização” não significa supressão pela força das liberdades e garantias constitucionais. Não é (nem requer necessariamente) um golpe de Estado.
É, isto sim, uma supressão da competição politica e eleitoral. A “mexicanização” pode conviver com certo grau de pluralismo político, desde que controlado ou consentido- como aliás ocorreu nas 6 décadas durante as quais o PRI exerceu incontrastado domínio sobre a vida mexicana.
Um país pode chegar (ou cair) em tal situação por diversos caminhos. Atentos à conjuntura latinoamericana – especialmente ao que se passa na Nicarágua, na Venezuela e na Bolívia -, alguns analistas temem a instauração entre nós de um “chavismo branco” . Fazendo ampla maioria no Congresso, o governo poderia, por exemplo, implementar uma adrede concebida reforma política, com o objetivo de assegurar por muito tempo a posição dominante da aliança partidária PT-PMDB, que o respalda.
Eu tenho ponderado que um processo desse tipo talvez nem seja necessário. O que uma estratégia “mexicanizante” ou “chavista” requer é a esterilização política da oposição. Isto é óbvio : o cerne da democracia é a possibilidade da alternância no poder. Onde não há uma oposição com chances reais de ascender ao comando do Estado, não há democracia.
Atualmente, no Brasil, a possibilidade de uma oposição eficaz passa necessariamente pelo PSDB. Um projeto de poder de longo prazo, hegemônico, requer o virtual aniquilamento politico-eleitoral dos tucanos.
Como já se notou, um país pode ser “levado” à uma situação mexicanizada, ou pode “cair” simplesmente nela. A esterilização da oposição pode resultar de uma estratégia do poder momentaneamente existente ou de uma conjunção de erros, acidentes de percurso, derrotas e até fraquezas das próprias forças oposicionistas.
O ponto que eu mais tenho martelado diz respeito à estratégia eleitoral montada pelo presidente Lula, nem um pouco sutil em seu objetivo de alvejar em cheio a oposição tucana.
Tenho também ressaltado a maleabilidade clientelista que praticamente anula a vitalidade democrática porventura existente no PMDB, e certos traços ideológicos dos quais o PT parece longe de se livrar, e que emprestam a esse partido uma coloração indisfarçavelmente autoritária. Moacir Japiassu | comentários(0)
19/08/2010 09:50 SEGUNDO TURNO
Por Germano (Mano) Gladstone, compositor, cantor e ex-juiz eleitoral no Recife.
Numa eleição meio prostituída, desigual e sem grandes nomes, as coisas vão acontecer a partir de uma avaliação do que já vem acontecendo até o momento, ou, certamente, surpreender a partir dos debates propriamente ditos, os quais, infelizmente, só vão acontecer pra valer bem próximo ao pleito. E, como é sabido, a grande massa desinformada nem sempre gosta desses debates.
Os programas na TV decorrem de gravações realizadas e lapidadas em estúdios, sem o debate das idéias e projetos de governo de cada candidato para que o “povão” possa pensar e refletir melhor. Além do mais, o pior, o que poderá causar maior dano ao pleito, é o voto de cabresto, que poderá vir a ser um desastre. Daí, os movimentos que já estão surgindo e incentivados pelas grandes instituições (OAB, órgãos ligados aos TREs, Igrejas, etc.) nas grandes metrópoles, objetivando coibir a compra de votos e outros vícios próprios de um país provinciano, onde o maior magistrado da nação, o presidente da república, é o primeiro a abusar da legislação eleitoral como é do conhecimento de todos os esclarecidos.
Em que pese ter se falado tanto há algum tempo sobre uma profunda reforma política, o assunto foi engavetado, abafado ou abortado. A legislação eleitoral está cheia de lacunas e não há lógica jurídica que os partidos banquem as multas decorrentes de delitos praticados por seus políticos no campo da propaganda eleitoral. Como disse, o atual presidente é o primeiro a dar mau exemplo disso e os outros pegam carona. Ora, se alguém comete um delito, uma infração, esse alguém é quem tem que arcar com as conseqüências do ato ilegal praticado. Se o pagamento não sai do bolso de quem praticou essa ou aquela infração eleitoral, o resultado é o desrespeito à lei.
No tocante a uma avaliação da situação eleitoral, prefiro não deixar minha opinião para depois. O barco já vem correndo contra a correnteza há bastante tempo, dando um ar de desigualdade a um pleito eleitoral com ventos favoráveis à candidata Dilma. Dessa forma, acredito que talvez os números mudem um pouco a partir dos próximos 30 dias e é possível que tenhamos surpresas nos últimos dias da propaganda eleitoral, principalmente por ocasião dos debates, quando o eleitorado estará mais atento. E será nessa fase que Dilma poderá perder votos.
Serra, por ser um candidato mais conhecido do eleitorado, acabou saindo na frente de Dilma nas primeiras pesquisas. Salvo engano, na época do lançamento de sua candidatura, na qual se viu uma festa contagiante na convenção dos tucanos, onde estavam presentes um grande estadista, o FHC, além do grande governador de MG, Aécio Neves, e outras importantes estrelas do PSDB. Aliás, é voz geral que teria sido bem melhor para a oposição se Aécio tivesse saído como vice, na chapa puro-sangue dos tucanos. Aquele momento somado às primeiras investidas de Serra, e uma boa cobertura da mídia, o favoreceu.
Com as perambulações do presidente pelo país ao lado de Dilma e as "aparições inaugurais" Brasil adentro, além de outras “mumunhas”, a candidata do presidente empatou e logo, logo, ultrapassou Serra nas pesquisas, com uma diferença que veio a crescer nos últimos dias, sem que saibamos o motivo. Trata-se de uma candidata, como sabemos, que não tem o dom da política propriamente dita (é mais uma técnica), enrrolada no que diz, desorganizada nas palestras, nos dircursos e nos debates, e desorientada quando trata de números. Não tem boa retórica nem carisma, é arrogante quando fala e, ao meu ver, não transmite confiança nenhuma para a fatia dos eleitores alfabetizados e esclarecidos.
Quanto a Marina, tenho certeza de que crescerá um pouco mais nas pesquisas. Tem boa retórica e conhece bem o caminho das pedras. Pensa pra frente, conhece melhor que os outros concorrentes os problemas do meio ambiente, um assunto importantíssimo no contexto geral do planeta no século XXI, e fala com mais altivez e conhecimento de causa. Para surpresa de muita gente, vai abocanhar muitos votos, principalmente dos jovens que representam uma grande fatia do colégio eleitoral brasileiro. Marina chegará no mínimo aos 12% ou 13% nas próximas pesquisas e vai tirar muitos votos de Dilma e colocar Serra versus Dilma, num segundo turno muito incômodo para a candidata do presidente.
O segundfo turno já está praticamente delineado e nos últimos debates saberemos separar melhor o joio do trigo. E será justamente nessa etapa que Dilma, arrogante e despreparada para a prática política, sairá fritada. Nesse caso, quem ganhará maior espaço entre os eleitores será Serra.
Os votos dados a Marina no 1º turno, com toda certeza migrarão para Serra no 2º turno. É bem possível que isso aconteça. Então, se somarmos todos esses pontos positivos àqueles 20% que dizem que não votariam em candidato de Lula de jeito nenhum, Serra terá grandes possibilidades de vencer no 2º turno, mas precisa atacar os pontos fracos do governo Lula, tais como saúde, educação, segurança pública, corrupção etc.
Germano (Mano) Gladstone -- Recife, 17/Agosto/2010. Moacir Japiassu | comentários(0)
19/08/2010 09:48 SINTRA
(Por Celso Japiassu)
O homem foi poupado
mas não poupou a si nem seus descendentes.
Violou as pedras
e sentou-se para admirar o jardim.
Uma lufada de vento, o frio dos metais
percorreu suas costas e fez assento na alma.
As palavras caíram sobre o chão,
houve clarões repisados na névoa.
Uma forma violenta de segredos,
este corpo onde habitou.
Nada se compara a esta forma de absurdos,
fraca, pendurada nos desvãos das janelas.
Mulheres, sorridentes, mostram-se;
nas ladeiras a água escorre, lava;
ha' vida nas latrinas, pensa o velho
que descobre a cabeça e olha os cemitérios.
(In Dezessete Poemas Noturnos) Moacir Japiassu | comentários(0)
12/08/2010 09:18 WILSON FIGUEIREDO NOTA DEZ
Não fez sucesso nem repercutiu nas pesquisas o elogio rasgado de Lula à sucessão presidencial, como se a ausência de candidatos de direita, pela primeira vez na história eleitoral do Brasil, fosse mérito pessoal dele. Também não terá sido para chamuscar de esquerdismo as candidaturas de José Serra e Dilma Rousseff. Teria sido elogio, ou não passou de provocação para animar o debate chocho? Pode ter sido também para chamar a atenção da própria direita, que não está nem aí. Lula não é de direita e, muito menos, de esquerda: localiza-se entre as duas fronteiras. Ideologicamente falando, é ambidestro sem saber explicar. Ou quis dizer que, depois que ele se retirar, a esquerda pode dispensar cuidados à direita? Por amor ao contraditório, dias depois contou que a direita, a cada 24 horas, tenta dar o golpe neste país. Denúncia ou enigma?
Em compensação, se assim se pode considerar, é a primeira vez que a esquerda comparece com dois candidatos, digamos, para que o eleitor possa escolher sem medo de errar, desde que vote na sua candidata. Nem por isso, nem por José Serra e Dilma Rousseff terem sido de esquerda, a vitória deixará de preferir um dos dois. Pode ser também que a esquerda tenha encurtado a distância que historicamente a separava da direita e se localize, nem tão perto que se confunda com ela nem tão longe que pareça incompatibilidade.
Há, no entanto, uma evolução no elástico conceito de esquerda que Serra e Dilma praticaram, desde a política estudantil, na visão compatível com esse modo de abordar as questões e de resolvê-las. Serra foi presidente da UNE, quando a causa de o petróleo é nosso era prioridade e o nacionalismo, o denominador comum. Uma geração depois, Dilma Rousseff foi à luta armada contra a ditadura que estava demorando a dar sinais de esgotamento, segundo o modo de ver da juventude à época. No tempo de um e de outra, a esquerda era insuspeita de manter relações promíscuas com a direita.
Como o compromisso do presidente Lula é com ele mesmo, poucos dias depois ele disparou de Porto Alegre o torpedo sem direção, ao dizer que a direita brasileira tenta, a cada 24 horas, dar golpes de que ele escapa sem alarde. Provavelmente queria dizer outra coisa. O que mandou na oportunidade, e foi publicado, não pode deixar de ser verdade, de acordo com o axioma de Samuel Wainer, segundo o qual, “se saiu em jornal, então é verdade”. Ou seja, até boato virtual se torna real quando publicado pelos jornais. Enquanto a terra dá uma volta completa em torno do seu eixo, a direita não cogita de outra coisa senão do que lhe compete por fatalidade histórica: esperar pelos erros e contradições da esquerda. É do que ela tem vivido até hoje. Moacir Japiassu | comentários(0)
12/08/2010 09:15 MIGUEL SOUSA TAVARES
Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:
- É sempre assim, esta auto-estrada?
- Assim, como?
- Deserta, magnífica, sem trânsito?
- É, é sempre assim.
- Todos os dias?
- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.
- E têm mais auto-estradas destas?
- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.
- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?
- Porque assim não pagam portagem.
- E porque são quase todos espanhóis?
- Vêm trazer-nos comida.
- Mas vocês não têm agricultura?
- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.
- Mas para os espanhóis é?
- Pelos vistos...
Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:
- Mas porque não investem antes no comboio?
- Investimos, mas não resultou.
- Não resultou, como?
- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.
- Mas porquê?
- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.
- E gastaram nisso uma fortuna?
- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...
- Estás a brincar comigo!
- Não, estou a falar a sério!
- E o que fizeram a esses incompetentes?
- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.
- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?
- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.
Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.
- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?
- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.
- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?
- Isso mesmo.
- E como entra em Lisboa?
- Por uma nova ponte que vão fazer.
- Uma ponte ferroviária?
- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.
- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!
- Pois é.
- E, então?
- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.
Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.
- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...
- Não, não vai ter.
- Não vai? Então, vai ser uma ruína!
- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.
- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?
- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!
- E vocês não despedem o Governo?
- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...
- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?
- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.
- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?
- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.
- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?
- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.
Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:
- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?
- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?
- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.
- Não me pareceu nada...
- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.
- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?
- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.
- E tu acreditas nisso?
- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?
- Um lago enorme! Extraordinário!
- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.
- Ena! Deve produzir energia para meio país!
- Praticamente zero.
- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!
- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.
- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?
- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.
- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?
- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.
Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:
- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?
- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.
Ela voltou a co Moacir Japiassu | comentários(0)
05/08/2010 10:39 PALMADINHAS...
(Por Eduardo Almeida Reis)
O assunto já foi tratado à exaustão sem que tenha sido exaurido, por isso que é inexaurível: deu para entender? Vamos aos fatos: o Estatuto da Criança e do Adolescente foi assinado por Fernando Collor, Bernardo Cabral, Carlos Chiarelli, Antônio Magri e Margarida Procópio. Lembram-se deles?
Transcorridos 20 anos foi enriquecido por Luiz Inácio e sua equipe, não importa quem o assine, porque a equipe, toda ela, é do conhecimento geral. Evito citar nomes: tenho leitores que são amigos ou parentes de algumas excelências e o compadrio, não raras vezes, fala mais alto do que a evidência dos fatos. Limito-me às palmadas nos filhos e pergunto: você, leitor, é contra ou a favor?
Sou favorável e vou explicar por quê. Palmada não é arrancar pedaço, queimar com ferro em brasa, cegar, bater com bastão de beisebol. De vez em quando, uma palmadinha tem hora e vez. A única maneira de saber se as palmadas funcionaram é avaliar seus resultados a médio e longo prazos. Se os resultados são razoáveis, bons ou muito bons, a terapêutica funcionou. Isso absolutamente não quer dizer que os objetos das palmadas fossem doentes como pode indicar o uso da palavra terapêutica: “tratamento de doentes”.
Em menino andei tomando uns cascudos: fiz por merecê-los. Certa feita, a arte foi tão séria que mereceu um murro do meu pai, médico, o mais civilizado e cordato dos mortais. Murro mesmo, com direito a ser varejado longe. Não vou dizer que o resultado tenha sido o melhor possível, mais é melhor do que a média. Pelo menos, conseguiram criar um cidadão que nunca furtou nem fez mal a ninguém de caso pensado, e ainda trabalha 10 horas por dia, tipo raro num país grande e bobo.
Criei três filhas com eventuais palmadinhas e puxões de orelhas, aí sim, com resultados brilhantes: trabalhadoras, virgens de pós e picadas, bem casadas, que frequentam uma cervejinha educada com sede ancestral do pai.
Duas ou três vezes dei cascudos nos filhos dos outros, que os criavam à Summerville, método de um francês maluco que propunha escolas sem freios, cujos resultados se veem por aí. Um dos guris saiu da fazenda em que seu pai trabalhou e foi operar no tráfico de entorpecentes na Baixada Fluminense.
Até aí, problema dele, dos pais e da Justiça. Acontece que voltava à fazenda tentando arrebanhar os filhos dos outros empregados. Consultei a autoridade policial do município de Três Rios, RJ, sobre como proceder com o jovem traficante.
O doutor delegado, com a sabedoria dos velhos policiais, aconselhou: “O senhor dá um couro nele”. Foi dado. Contei com o adjutório de dois empregados, que vinham tendo seus filhos convocados pelo traficante. O jovem saiu da fazenda bastante amassado e seu pai intentou dar queixa à polícia, no que foi dissuadido pelo mesmíssimo delegado com a promessa de estender o couro ao resto da família do jovem traficante.
Família que deve ter acabado mal, porque os pais não se importavam que um dos filhos, de 14 anos, recorresse aos favores sexuais da irmã de 11 aninhos. É triste, mas foi a mais pura verdade. Moacir Japiassu | comentários(0)
05/08/2010 10:36 FUNAFUTI...
...é a capital oficial de TUVALU, um grupo de nove atóis coralinos
que fica no Pacífico, logo ali na Polinésia. Trata-se de uma monarquia
constitucional que faz parte da Commonwealth, ou seja, S.M.
Elizabeth II é a chefe de Estado, tem um Governador Geral, mas quem
manda mesmo é o primeiro ministro escolhido pelo Parlamento composto de
15 membros.
A população de Tuvalu (os tuvalua nos) atingiu em 2009 a espantosa cifra
de _12.273 habitantes_, praticamente todos descendentes de
samoanos. Como os missionários ingleses, em nome de Deus, acabaram com a
religião local, hoje 87% da população é cristã protestante, 6% não tem
religião, e 0,6% são ateus. Já é um começo.
A economia de Tuvalu (PIB 14,8 milhões de dólares) é baseada na
exportação de COPRA e PANDARA. Não me perguntem o que é isso; eu confesso que não sei. Creio tratar-se de algum produto primário vegetal,
mas aceito outras explicações mais científicas.
Aquele país vendeu seu domínio na Internet (tv) para uma empresa
americana, por 50 milhões de dólares pagáveis em 12 anos, o que elevou
em 50% seu PIB! Outra fonte de renda é a venda de sua bandeira para
navios estrangeiros.
Não existe estação de TV em Tuvalu (eles são felizes e não sabem). Há
somente um jornal impresso que cir cula de 15 em 15 dias, cuja tiragem é
de 500 exemplares.*
*Mas por que estou falando de Tuvalu para vocês? *
*É que a diplomacia do Governo Lula, criou uma embaixada em
Tuvalu, mais especificamente na capital Funafuti por meio do Decreto
7.197 de 02 de junho de 2010.
Creio que o Itamarati está esperando a população de Tuvalu atingir a
cifra de 20 mil para então alugar uma oca naquele país e instalar
definitivamente a embaixada. Vai ser mais um grande feito da nossa
diplomacia, equiparável ao acordo nuclear com o Irã.*
(Renato Alves Horta) Moacir Japiassu | comentários(0)
05/08/2010 10:34 A FORRA DOS EUNUCOS
(Por Sérgio Augusto)
Na condição de jurado no recente Festival de Paulínia não podia falar dos filmes em competição, mas de cinema em geral, tudo bem; e foi por essa brecha que dois jornalistas de Campinas me pegaram para um tête-à-tête. Às horas tantas, a indefectível pergunta sobre o papel da crítica. Já era tempo de eu ter uma resposta engatilhada, tantas vezes me perguntaram sobre isso; mas, como nas outras vezes, só tirei banalidades do colete.
O assunto é espinhoso e de difícil cultivo no baldio de uma entrevista, vocacionalmente superficial. Fixei-me em duas certezas: 1) a crítica é um mal necessário; 2) ajudou à beça o cinema brasileiro. Toda vez que alguém reclama de uma suposta má vontade da crítica com o cinema brasileiro, tenho ganas de enfiá-lo numa máquina do tempo e despachá-lo para as décadas de 1940 e 1950.
Naquele tempo, sim, nossos filmes e seus realizadores sofriam o diabo na mão dos críticos e jornalistas em geral.
Moniz Vianna, mestre da minha geração, tratava as chanchadas a chibatadas e chegou a recomendar a dois de seus mais prolíficos expoentes, Lulu de Barros e José Carlos Burle, que mudassem de profissão: para, respectivamente, pintor de parede (ou taqueiro) e acrobata. Anos depois, apelidou os gêmeos Renato e Geraldo Santos Pereira, ambos diretores, de irmãos Santos Besteira e irmãos Brothers.
Quem se habilita a compilar essas e outras espirituosas espinafrações? Afinal, elas também fazem parte do folclore do cinema brasileiro e tornaram-se inofensivas com o passar do tempo. Talvez apenas Paulo César Saraceni não tenha esquecido do apelido que o crítico Ely Azeredo deu a seu filme Porto das Caixas: “Aborto das Caixas”. Outro clássico: o fulminante comentário de quatro palavras que Jaguar fez, no Pasquim, ao filme A Batalha dos Guararapes, de Paulo Thiago: “Desta vez o Brasil perdeu”.
O crítico pode ser comparado a um eunuco no harém, mas quando o sultão brocha, ele vai à forra e se diverte.
Se uma crítica sóbria mas implacável é capaz de azedar uma amizade, outra, temperada de ironia ou galhofa, pode causar estragos maiores. As pedras reconhecem o valor de uma boutade; as vidraças, não.
Segundo Millôr, os humoristas não atiram para matar. Os críticos tampouco, a despeito do que falam da morte do poeta irlandês Yeats, suposta vítima de uma crítica arrasadora (e, se comprovada a suspeita, letal) publicada na Quarterly Review. Não saberia citar o nome de um crítico que tenha atacado um criador com outra arma que não aquelas sacadas do dicionário. A recíproca não é verdadeira. Vá a um centro espírita e pergunte ao Paulo Francis.
Não era por ser truculento ou maluco, mas apenas dadaísta, que o francês Jacques Vaché tinha o hábito de subir ao palco com um revólver na mão para ameaçar com um tiro quem aplaudisse a peça que ele estava achando uma porcaria. Ficou sempre na ameaça. Já Saint-Beuve, o grande crítico francês do século 19, chegou a ser desafiado para um duelo; mas quando a furibunda vítima de seus comentários permitiu que ele escolhesse a arma de combate, Saint-Beuve sacou rápido: “Ortografia!”, e proclamou-se vencedor. Dispunha da melhor das munições, o humor.
Nenhum artista é imune à crítica e só espíritos superiores a tiram de letra por sabê-la circunstancial, passageira, e muitas vezes inócua. Consolem-se: até Shakespeare enfrentou resistências às suas peças, desapreciadas por Samuel Pepys, Alexander Pope, Lorde Byron e Voltaire. Machado de Assis foi pichado por Silvio Romero. Walt Whitman levou cascudos de Algernon Swinburne, o Saint-Beuve inglês.
Mark Twain achava Poe e Jane Austein ilegíveis. Virginia Woolf disse as piores de Joyce. Henry James cansou de ser espinafrado por H.G. Wells e Oscar Wilde. “A primeira regra para um jovem autor”, aconselhou Wilde, “é não escrever como Henry James. A segunda e a terceira, também”.
Ao contrário do que muitos pensam, a posteridade não é bônus exclusivo das obras criticadas. Ninguém mais se recorda de um espetáculo teatral intitulado Wham! Nem os ratos da Broadway se lembram dele. Mas um bocado de gente sabe de cor a crítica que Wolcott Gibbs escreveu sobre Wham! na revista The New Yorker: “Ouch!”. Só isso. Interjeição com interjeição se paga.
Se Gibbs produziu a diatribe mais concisa de todos os tempos, a mais mordaz talvez tenha sido um privilégio de seu colega de ofício, George Jean Nathan. Famoso, acima de tudo, por uma tirada que Paulo Francis adotou como mantra (“Bebo para tornar as outras pessoas interessantes”), Nathan fazia picadinho dos fiascos teatrais nos anos 1930 e 1940 sem jamais perder a graça. Sua crítica a uma comédia idiota, intitulada Smile! Smile! Smile!, instantaneamente condenada ao ostracismo, não continha mais do que três palavras: “I didn’t! I didn’t! I didn’t!”. Nathan não riu, mas seus leitores se esbaldaram.
Ao vivo, Nathan, o modelo de Addison De Witt, o personagem de George Sanders em A Malvada, também era um azougue. Na estreia no palco de White Cargo, aborreceu-se de tal modo com a vulgaridade e o inglês estropiado da protagonista, uma nativa chamada Tondelayo, que na cena em que ela se recusava a fugir de sua aldeia no Congo, aos gritos de “Me Tondelayo, me stay!”, levantou-se na plateia, berrou “Me George Jean Nathan, me go!”, e foi-se embora. Um espetáculo à parte.
Ok, Gibbs e Nathan não sabiam dirigir o carro, mas conheciam o caminho. E sabiam sacar quem era ruim de volante. Moacir Japiassu | comentários(0)
29/07/2010 09:10 BOLÍVAR LAMOUNIER
Presença do Estado e do presidente no processo eleitoral: um fato sem precedentes no Brasil
Anuncia-se que Lula será o “apresentador” de Dilma Roussef na propaganda gratuita pelo rádio e pela televisão que começa a 17 de agosto. Pelo visto o presidente planeja uma espécie de clímax, uma vez que já vem participando intensamente da campanha há bastante tempo. Esse agigantamento da intervenção do Executivo na eleição é um fato sem precedente na história política brasileira. Para bem ressaltá-lo, é útil distinguir dois aspectos, a preponderância do Estado sobre a sociedade e a participação do presidente no processo eleitoral, especificamente.
Uso o termo “sociedade” para designar o conjunto do setor econômico privado, as organizações profissionais, religiosas e outras, as instituições educacionais, notadamente as universidades etc.
Assim, voltando ao assunto, a preponderância do Estado é um traço permanente de nossa história. Foi estudado por muitos autores importantes, como Simon Schwartzman, o mais recente, no livro Bases do Autoritarismo Brasileiro (Editora Campus, 1982). Nos países adiantados, a sociedade tem força suficiente para contrabalançar a do Estado. Isto é especialmente claro nos Estados Unidos. Lá, o governo é fortíssimo, claro, mas a sociedade também o é. No Brasil, ao contrário, a máquina pública exerce uma força de gravitação avassaladora. De um lado – “de baixo para cima, melhor dizendo -, todos os atores políticos querem participar dela, exercer influência por dentro dela – não por fora, contrapondo-se a ela e tentando firmar um status de liderança diretamente na sociedade.
Tempos atrás, fantasiava-se que a Fiesp seria um contraponto privado importante. Na imprensa, ela costumava ser chamada a “poderosa Fiesp”. Com a rotinização da democracia e das disputas eleitorais, a percepção é outra. Hoje, a real dimensão dela aparece na quixotesca candidatura de Paulo Skaf ao governo de São Paulo. De cima para baixo, o Estado maneja um impressionante arsenal de recursos. Pode distribuir bondades sem fim – através dos bancos oficiais, por exemplo, dos quais nem as grandes empresas conseguem prescindir. Mas o fato novo são os programas sociais, Bolsa Família à frente, que o governo Lula soube transformar em potentíssimas armas eleitorais.
O segundo aspecto a notar é a invasão do processo eleitoral pela figura pessoal do chefe do Estado.
Interferência o chefe de Estado sempre exerceu, desde o Império. Exerceu ou tentou exercer. Mas nunca nessa extensão. Na Primeira República (1889-1930), a “situação” - ou seja, os governantes e seus aliados nos planos federal e estadual – esmagavam a oposição. Eram poucas as exceções a esta regra. No Rio Grande do Sul ela não funcionava. E houve períodos em que a governabilidade foi mantida à custa de considerável truculência ; no governo Arthur Bernardes (1922-1926), o estado de sítio vigorou do começo ao fim. De 1930 em diante, Getúlio sofreu forte oposição enquanto aprendia a manejar as rédeas do poder, mas a oposição começa a empalidecer a partir de 1935 e praticamente desaparece, é óbvio, de 1937 a 1945, período da ditadura. Em 1950 Getúlio consegue se eleger, mas mal consegue governar.
Há uma crise permanente, cujo desfecho foi o suicídio, a 24 de agosto de 1954. Juscelino Kubitschek, dono de uma personalidade afável, perfil de verdadeiro democrata, não interferiu no processo eleitoral. Não tentou ou não tinha como fazer o sucessor. O eleito, Jânio Quadros, fazia o gênero do oposicionista destemperado. Ao período militar este enfoque obviamente não se aplica. No novo período democrático que se estabelece a partir de 1945, nenhum dos presidentes, de Sarney e Collor não teriam condições de intervir, Itamar e Fernando Henrique também não, mas não interfeririam, ainda que as tivessem, pois tampouco tinham tal perfil.
Lula é portanto um fato eleitoral inteiramente novo no Brasil. Ele fabricou, literalmente, a candidata. Forçou-a goela abaixo ao PT. Transferiu-lhe praticamente todo o cabedal de votos que ela ora possui. E pretende concluir a obra no horário eleitoral gratuito, daqui a três semanas. Criou, portanto, o papel de um presidente super-intervencionista na política eleitoral e especificamente no processo sucessório. Se o criou para o bem ou para o mal, é cedo para dizer.
UMAS E OUTRAS
• A foto de Chávez e Maradona lado a lado, em postura meio marcial, é de um ridículo atroz.
• O Datafolha deste fim de semana mostrou que 54% dos eleitores opõem-se ao projeto que proíbe aplicar castigos corporais aos filhos. A maioria dos pais diz que levou palmadas ou beliscões na infância e que já os deu alguma vez em seus filhos. Isto lembra um pouco o fiasco do plebiscito sobre desarmamento. Em abstrato, a causa é das mais louváveis, mas em concreto as pessoas parecem rejeitar enfaticamente a intervenção do Estado em sua esfera privada e familiar.
• Será que os analistas políticos não deviam ter um talismã, uma figura ou símbolo qualquer que os identifique ? Se resolverem adotar algum, eu desde já sugiro o Lóris Delgado, aquele bichinho simpático que foi fotografado pela primeira vez há poucos dias. Sua característica principal são os olhos enormes, que lhe permitem enxergar no meio da noite. Moacir Japiassu | comentários(0)
22/07/2010 09:31 A VOLTA DO CADERNO RABUGENTO
(Por João Ubaldo Ribeiro)
Não sei se vocês se lembram de quando lhes falei, acho que no ano passado, num caderninho rabugento que eu mantenho. Aliás, é um caderninho para anotações diversas, mas as únicas que consigo entender algum tempo depois são as rabugentas, pois as outras se convertem em hieróglifos indecifráveis (eu sei que o recomendado é "hieróglifo", mas sempre achei que quem diz "hieróglifo" está tentando descolar alguma coisa dos dentes), assim que fecho o caderno. Claro, é o reacionarismo próprio da idade, pois, afinal, as línguas são vivas e, se não mudassem, ainda estaríamos falando latim. Mas, por outro lado, se alguém não resistir, a confusão acaba por instalar-se e, tenho certeza, a língua se empobrece, perde recursos expressivos, torna-se cada vez menos precisa.
Quer dizer, isso acho eu, que não sou filólogo nem nada e vivo estudando nas gramáticas, para não passar vexame. Não se trata de impor a norma culta a qualquer custo, até porque, na minha opinião, está correto o enunciado que, observadas as circunstâncias do discurso, comunica com eficácia. Não é necessário seguir receituários abstrusos sobre colocação de pronomes e fazer ginásticas verbais para empregar regras semicabalísticas, que só têm como efeito emperrar o discurso. Mas há regras que nem precisam ser formuladas ou lembradas, porque são parte das exigências de clareza e precisão - e essas deviam ser observadas. Não anoto, nem tenho qualificações para isto, com a finalidade de apontar o "erro de português", mas a má ou inadequada linguagem.
E devo confessar que fico com medo de que certas práticas deixem de ser modismo e virem novas regras, bem ao gosto dos decorebas. É o que acontece com o, com perdão da má palavra, anacolutismo que grassa entre os falantes brasileiros do português. Vejam bem, nada contra o anacoluto, que tem nome de origem grega e tudo, e pode ser uma figura de sintaxe de uso legítimo. O anacoluto ocorre, se não me trai mais uma vez a vil memória, quando um elemento da oração fica meio pendurado, sem função sintática. Há um anacoluto, por exemplo, na frase "A democracia, ela é a nossa opção".
Para que é esse "ela" aí? Está certo que, para dar ênfase ou ritmo à fala, isso seja feito uma vez ou outra, mas como prática universal é meio enervante. De alguns anos para cá, só se fala assim, basta assistir aos noticiários e programas de entrevistas. Quase nenhum entrevistado consegue enunciar uma frase direta, na terceira pessoa - sujeito, predicado, objeto - sem dobrar esse sujeito anacoluticamente (perdão outra vez). Só se diz "o policiamento, ele tem como objetivo", "a prevenção da dengue, ela deve começar", "a criança, ela não pode" e assim por diante. O escritor, ele teme seriamente que daqui a pouco isso, ele vire regra.
E os verbos em "izar"? Não sei se vocês já notaram que há muito tempo, principalmente por escrito, ninguém vê, enxerga, discerne, descortina, ou qualquer outro sinônimo decente. Agora só se visualiza, mais nada e, em Itaparica, ouvi de um menino turista a comunicação, feita ao pai dele, de que estava visualizando de binóculo. "Vender" tem sofrido uma sabotagem inclemente por parte de "comercializar" e não duvido nada que venha a ser banido, assim como foram "pôr" e "botar". Hoje em dia, o verbo "colocar" perdeu o sentido mais preciso que tinha e substitui os dois outros, inclusive em usos tradicionais. A galinha coloca ovo, dando a impressão, para quem aprendeu o uso mais específico desse verbo, de que a galinha faz a postura (aliás, talvez devesse dizer "colocação") ajustando cuidadosamente o fiofó num canto do ninho escrupulosamente escolhido.
O mesmo tipo de impressão se tem, quando se ouve no noticiário que alguém colocou fogo num barraco. Atear fogo, nem pensar. Virá o dia em que alguém vai colocar pra quebrar. E já ouvi também (ou vi escrito; com esse negócio de internet, não sei mais o que li onde) "ajustabilizar" e "ausentabilizar", este último, a julgar pelo som, um verbo que haverá de ter lá sua serventia, usado em relação ao Congresso Nacional.
"Prejudicar", com longa e honrada folha de serviços prestados ao povo brasileiro, também está no caminho célere do ostracismo. Ninguém mais é prejudicado, agora todo mundo é penalizado. Quem estiver pensando em usar a palavra no sentido antigo melhor fará se a substituir por "comiserar", enquanto esta ainda se encontra disponível, pois, no futuro, "comiserado" poderá ser a designação aplicada por alguma ONG a companheiros de miséria no Terceiro Mundo.
"Personalizar", palavra com mais de cem anos de batente, agora está de aviso prévio e marchará para o esquecimento a que lhe votam os cada vez mais numerosos aficionados de "customizar". Os verbos em "ionar" também desfrutam de grande voga e um deles, "posicionar", já mandou "dispor" para o espaço. Nenhum general dispõe mais suas tropas assim ou assado, não mais se dispõem as peças de um jogo de tabuleiro. E se arruma bem menos que no passado. Acho que qualquer técnico de futebol contemporâneo ficaria ofendido, se alguém comentasse que ele arrumou seu time assim ou assado, porque ele posiciona, tudo é posicionado. Da mesma forma que "colocar", fica, por alguma razão, mais chique.
Finalmente, para não perder o costume, faço mais um réquiem para o finado "cujo". Tenho a certeza de que, entre os muito jovens, a palavra é desconhecida e não deverá ter mais uso, dentro de talvez uma década. A gente até se acostuma a ouvir falar em espécies em extinção, mas, não sei por que, palavras em extinção me comovem mais, vai ver que é porque vivo delas. E não é consolo imaginar que o cujo e eu vamos nos defuntabilizar juntos.
Moacir Japiassu | comentários(0)
15/07/2010 09:08 PARA ONDE VAMOS?
(RANGEL CAVALCANTE)
Para onde vai um país em que um em cada três dos
seus habitantes recebe dinheiro do governo sem trabalhar? A
indagação vem a propósito da declaração do presidente Luiz Inácio
Lula da silva de que legará ao seu sucessor um país em que uma em
cada três famílias receberá o benefício da bolsa-família, um
universo de 63 milhões de brasileiros. Isso significará o mesmo que
sustentar na ociosidade toda a população do Uruguai, Paraguai,
Bolívia e ainda a metade dos 40 milhões dos hermanos argentinos.
Nunca na história desse planeta se viu um assistencialismo de
tamanha dimensão. Isso significa que dois de cada três brasileiros
terão que trabalhar e pagar os impostos mais escorchantes do mundo
para sustentar um terceiro que não faz nada. Ora, o companheiro Raul
Castro alertou no ano passado que esse tipo de espécie de cupim que
devora os mais elementares princípios da família. Os cubanos, que
inventaram a bolsa-família antes de FHC, concluíram que esse tipo de
ajuda é um péssimo exemplo para as crianças que vêm os pais
ganhando dinheiro do Estado sem fazer nada e assim logo adquirem o
vício da ociosidade remunerada. Tanto que as autoridades cubanas
decidiram mudar a coisa, depois que uma pesquisa constatou que
arranjar um emprego e trabalhar é a sétima prioridade dos jovens do
país.
Há anos havia no Brasil as famosas frentes de serviço que socorriam
os nordestinos nos períodos de seca. Legiões de homens e mulheres
eram alistadas e recebiam dinheiro e comida do governo. Em
contrapartida, trabalhavam na construção e recuperação de estradas,
açudes e outras obras públicas em toda a região. Mesmo assim eram
criticadas por casos de corrupção e por sofrerem a influencia do
coronelismo. Essas frentes não viciavam nem humilhavam o cidadão. E
nem criavam uma legião de parasitas vivendo em simbiose com os
cofres públicos.
A malha rodoviária do país está em frangalhos. Assim como os portos,
as escolas e os hospitais públicos. Acabaram as ferrovias, que a
Europa e os Estados Unidos continuam construindo. E as poucas obras
viraram o imenso bolo com a qual se banqueteiam as empreiteiras,
quase sempre escolhidas por processos viciados. Está na hora de o
governo repensar esse assistencialismo demagógico. Vamos dar
dinheiro e comida a quem necessita. Mas em troca de algum trabalho.
O Brasil precisa disso. Do contrário já se pode vislumbrar muito bem
para onde um país em que grande parte de seus habitantes esquece
aquilo que o companheiro Raul Castro chamou - repetimos - de
necessidade vital de trabalhar. E o maior risco é o de nos
transformarmos pelo voto numa ditadura democrática como a do
companheiro Hugo Chávez. Moacir Japiassu | comentários(1)
08/07/2010 09:34 JOSÉ NÊUMANNE PINTO
A DOUTRINA LÚMPEN CONTRA O DIREITO DO AUTOR
A pretexto de proteger o funk da periferia do Ó e a serviço da banda larga, nova lei tunga autores
O governo Lula nunca desistiu de controlar e vigiar a cultura e a informação. Em 2004, propôs criar a Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav), mas, obviamente intervencionista, esse projeto gorou. Logo em seguida, veio a lume o tal Conselho Federal de Jornalismo (CFJ), a pretexto de “combater os excessos provocados pela liberdade de imprensa”. Uma vez mais, o canhão errou o alvo.
O governo, contudo, persistiu e, em 2009, convocou a Conferência Nacional de Comunicação para disciplinar as concessões precárias de canais de rádio e televisão. Mais um fiasco! Quem pensou que este malogro poderia levá-lo a desistir deu com os burros n’água: no mesmo ano passado, a Conferência Nacional da Cultura sugeriu a modificação de dispositivos que garantem a liberdade de expressão, informação e opinião.
Paralelamente, após um parto que durou toda a existência da República lulista, começou a fase de audiências públicas para ser encaminhada ao Congresso uma nova lei para os direitos autorais. Desta vez, junto com o controle burocrático da expressão estética, propõe-se a apropriação patrimonial do bem cultural.
Para entender o que inspira a proposta dos ministros baianos da Cultura das gestões Lula, o cantor Gilberto Gil e seu preposto Juca Ferreira, convém começar a discussão do tema pelas causas, antes de chegar aos defeitos. O direito de autor é uma das conquistas da Revolução Francesa de 1789. Só há 221 anos, portanto, o criador de obras de arte passou a ser considerado proprietário da própria criação, podendo dela dispor de acordo com suas conveniências e convicções e usufruir sua comercialização.
O direito moral do autor sobre sua obra é o que permite, por exemplo, a Roberto Carlos impedir regravações de seu primeiro grande sucesso, Quero que tudo vá pro inferno, embora não possa evitar que as gravações já existentes da canção, de sua autoria, em parceria com Erasmo Carlos, sejam executadas em público ou reproduzidas por meios eletrônicos. Do mesmo conceito se valeu o violonista Baden Powell, que renegou seus Afro-sambas (em parceria com Vinicius de Moraes) após se haver tornado evangélico. Mas, da mesma forma, não foi vedado ao público ouvir a obra original nas gravações feitas antes de o músico se converter.
O direito patrimonial torna possível ao autor – compositor, escritor, dramaturgo, cineasta, etc. – cobrar sua parcela financeira (em torno de 10% sobre o preço do produto feito a partir de sua obra) na venda do que criou. Mercê do êxito comercial de seus romances, o baiano Jorge Amado viveu da porcentagem sobre o preço de capa de seus livros, não precisando ter emprego público, como tiveram gênios da literatura brasileira – caso de Machado de Assis e de Guimarães Rosa, que eram funcionários de ofício e escreviam suas obras-primas nas horas vagas. O direito “exclusivo” do autor sobre sua obra é cláusula pétrea da Constituição brasileira.
Mas a concorrência acirrada pelo barateamento radical do conteúdo das mensagens veiculadas – agora primordialmente na banda larga da rede mundial de computadores – encontrou na doutrina do lumpesinato artístico na periferia da indústria cultural a aliança ideal na guerra contra o pagamento de royalties a autores, artistas e intérpretes. As palavras de ordem que estão por trás do discurso da dupla nada ingênua Gil e Juca são: “Todo o poder ao funk da periferia” e “morte ao imperialismo colonial da indústria cultural.” Essa retórica é politicamente corretíssima para os socialistas que se uniram em torno do refrão: “A obra de arte é patrimônio coletivo de quem a consome, e não propriedade de quem a cria.”
Este é o estandarte da procissão puxada por Gilberto Gil, artista patrocinado pela Telefônica, grande distribuidora de conteúdo cultural em banda larga, e por Juca Ferreira, burocrata que nunca teve dinheiro a reclamar em nenhuma sociedade arrecadadora. É muito conveniente para os fornecedores gigantes do conteúdo cultural apelar para o argumento de que direitos autorais encarecem o consumo, tornam-no elitista e impedem o acesso dos pobres à cultura. Com base nisso, o projeto reduz a participação do porcentual do direito de criação na arrecadação. A eventual (mas felizmente, ao que parece, improvável) aprovação da nova legislação do direito autoral seria ainda uma sopa no mel para os companheiros que estão no poder federal.
Pois as sociedades arrecadadoras constituídas pelos próprios autores, e por isso de direito privado, e não público, seriam fiscalizadas por conselhos paritários em que se juntariam representantes dos poderes públicos e da “sociedade civil” (a “companheirada organizada”). Isso tudo contraria cláusula pétrea da Constituição (artigo 5, inciso XVII), que reza: “A criação de associações e, na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização, sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento.” Além disso, o assunto é regulamentado por tratados internacionais que o Brasil se comprometeu a honrar. Até Robin Gibb, dos Bee Gees, presidente de uma associação de autores com 2,5 milhões de associados, já protestou contra o esbulho.
A arrecadação e a distribuição de direitos autorais no Brasil nem sempre contentaram os interessados nelas. Mas agora todos se uniram contra esta nova lei, manifestando seu descontentamento consensual (quase unânime, à exceção de Gil) com o fato de os astros da indústria cultural terem apoiado Lula nas eleições, mas nunca terem sido ouvidos em sete anos e meio de tentativas de lhes impor a “tunga” no direito autoral. Ainda que alguns discordem de detalhes da gestão arrecadadora e distribuidora, todos concordam que a sugerida usurpação dos direitos moral e patrimonial sobre obras de arte, a pretexto de incluir o lumpesinato excluído no mercado, mas, no fundo, a serviço do baronato da banda larga – e com controle ideológico sobre a produção artística –, seria o pior dos mundos.
(Nêumanne, jornalista e escritor, é também editorialista do Jornal da Tarde.) Moacir Japiassu | comentários(0)
08/07/2010 09:31 CELSO JAPIASSU
A FONTE
Era o instante da memória que vivia
o tempo das mudanças
e das sombras refletidas nos estios.
O tigre da memória e a sua sombra.
No lugar dos jardins, bosques sombrios
e onde foram caminhos, retinas assombradas.
Vou retirar da fonte o alívio das pegadas
e o esmorecer das tardes encobertas
pelo jorrar do pó das semelhanças.
Ali se deitarão nossos delírios
junto ao sereno, ao clamor e às despedidas,
vigília das noites espelhando seu cansaço. Moacir Japiassu | comentários(0)
01/07/2010 09:20 SÉRGIO AUGUSTO
DA GROSSERIA À CRETINICE
Com os americanos do norte e do sul, tudo azul—no campo, na bandeira e no uniforme. Com os europeus e africanos, não. Niente azzurra, les bleus non plus. Nem quando o Mundial foi disputado em dois países simultaneamente, além do mais asiáticos, aconteceram tantos imprevistos antes das oitavas de final como nesta Copa.
O superestrelismo dos técnicos, por exemplo. O que prometia ser a Copa do Messi, do Cristiano Ronaldo, do Wayne Rooney, do Kaká, do Drogba, acabou virando a Copa do Maradona, do Dunga e do Raymond Domenech.
Foram três shows à parte. De narcisismo (Maradona), grosseria (Dunga) e cretinice (Domenech). Com nítida vantagem para Maradona, que, bufônico como um Hugo Chávez da pelota, divertiu a massa e pôs em campo um time afinal afinado, ao menos do meio para a frente.
Dunga também superou as expectativas. Já se sabia que ele, efetivamente, está mais para Zangado ou para Neurastênico, o oitavo anão da Branca de Neve que acabo de inventar, mas nem sua porção Schwarzenegger nos havia preparado para o surto de domingo passado. Sua erupção neurastênica, depois da vitória sobre a Costa do Marfim, teve, porém, uma consequência positiva: inspirou uma deliciosa paródia de Um Dia de Fúria, com o técnico no papel de Bill Foster, o possesso personagem de Michael Douglas naquele filme.
Na coletiva de quinta-feira, com o “dia de Führer” do Dunga ainda abafando no You Tube, o técnico pediu desculpas pelo seu destempero aos torcedores brasileiros. Saiu-se bem melhor que o técnico da França, que ficou devendo um excusez-moi ao Parreira, se é que não torrou todo seu estoque de pardons com a torcida francesa. Pateticamente soberbo, incompetente, sem autoridade e mal-educado, Domenech, ao contrário de Dunga, não encontrou um escasso defensor. Seu fiasco foi ainda mais inesperado que o papelão da Azurra.
À meia dúzia de traumas africanos acumulados pelos franceses desde o final do século 18 (a Batalha do Nilo, Fashoda, a Batalha de Mers-El-Kebir, Suez, Argélia), veio somar-se a debacle em Bloemfontein, o pior 22 de junho da história da França desde a assinatura do armistício com a Alemanha Nazista, há 70 anos.
A França já chegou à África do Sul de crista baixa, tisnada por escândalos sexuais, rivalidades internas e um indecoroso passe de mão que roubou da Irlanda uma vaga no Mundial. Nem os franceses acreditavam no seu sucesso. Como confiar numa equipe comandada por um técnico que seleciona jogadores pela conjunção dos astros e aceitou participar de uma Copa com um bilhete azul no bolso?
Apáticos, os bleus só cumpriram tabela e nem pressionados pelo governo recuperaram o brio e a dignidade. Na véspera de sua melancólica despedida da Copa, uma pesquisa revelou que 75% dos franceses torceriam pela África do Sul no dia seguinte. A tão justamente celebrada união multiracial e multicultural de 1998 começou a morrer na Cidade do Cabo, definhou mais um pouco em Polokwane e bateu as chuteiras em Bloemfontein. Foi um baque terrível, de consequências imprevisíveis, não só para o futebol francês mas para o futebol europeu como um todo, rico nos clubes, cada vez mais pobre nas seleções.
Uruguai e México apenas se classificaram para as oitavas em seu grupo. O maior beneficiário do fracasso da França foi mesmo a direita xenófoba e racista liderada pela Frente Nacional de Jean-Marie Le Pen, temporariamente desautorizada pela conquista da Copa de 98 pelos negros e árabes de origem africana, caribenha e antilhana que ao futebol francês deram classe, vigor e panache, mas que agora está de volta, com ânimo renovado, revolvendo velhos ressentimentos contra os “estrangeiros de cor e islâmicos” (Anelka, Evra, Gallas, Abidal, Sagna etc) que desonraram a Gália nos gramados de um canto do mundo que, pelo gosto de Le Pen, ainda se chamaria Transvaal.
Você talvez não admita chorar pela Argentina de Maradona, mas a desventura dos bleues vale uma ou duas lágrimas. A França conquistou apenas uma Copa do Mundo, nunca foi uma potência futebolística, mas sua importância para a história dos esportes em geral e do futebol em particular não merecia tamanho revés, muito menos agora, com tantas questões sociais, econômicas e religiosas rachando o país.
A Copa do Mundo, a Fifa e as olimpíadas modernas nasceram na França, criadas por Jules Rimet e o Barão de Coubertin. Também é francês o mais respeitado diário esportivo do mundo, L’Équipe, fundado em 1946. A França foi o primeiro país europeu a difundir o futebol em suas colônias; verdade que com segundas intenções, como uma forma de distensão social, que afinal fugiu ao controle dos colonizadores, mas acabaria proporcionando à corte alguns momentos inesquecíveis de glória e unidade nacional no século passado.
Embora tenham inventado o futebol, os britânicos confiaram sua difusão à anárquica cetequese dos marinheiros do império. Os belgas e holandeses também chegaram com atraso ao uso inteligente do futebol e à exploração das vocações locais em suas colônias. Saiu há dias um formidável estudo do historiador francês Laurent Dubois sobre o nascimento e o apogeu do futebol nas colônias francesas e as raízes que implantou nas banlieues de Paris, Marselha e Lyon, dos anos 20 até hoje. Escrito em inglês (Soccer Empire: The World Cup and the Future of France, ou seja O Império do Futebol: A Copa do Mundo e o Futuro da França), pode ser baixado no Kindle da Amazon por míseros US$ 12.
Estão todos lá, do marroquino Ben Barek e do guianense Raoul Diagne, herois dos anos 1930, a Trésor e Tigana, passando por outros legendários imigrantes, como Raymond Kopa (artilheiro da Copa de 1958, filho de poloneses), Just Fontaine (nascido em Marrakech), Michel Platini (filho de italianos), o argelino Zidane, minuciosamente biografados e recortados sobre a paisagem social e política de suas respectivas épocas.
A história do futebol francês é bem mais rica, eletrizante e politizada que a do futebol brasileiro. Pena que Domenech e Le Pen façam parte dela, como Maginot e Pétain entraram na da França. Moacir Japiassu | comentários(0)
01/07/2010 09:15 DERRAMADO ESPICILÉGIO
POR CARLOS AYRES BRITTO
Michael Jackson foi um dançarino pop. Nisso, todos os críticos estão de acordo. Logo, um dançarino popular ou não clássico. Não erudito. Mas um dançarino que trouxe para os palcos do mundo uma dança de rua tão criativamente repaginada que despertava emoções coletivas do mais puro encantamento.
Quero dizer: independentemente da faixa etária ou da procedência geográfica dos espectadores, uma atmosfera de delírio visual envolvia Michael Jackson em cena. Nunca se viu ninguém (nem mesmo o fenomenal Elvis Presley) que desse tanta liberdade aos quadris, mãos, pernas e expressões faciais, num contexto rítmico de impecável marcação e irresistível contágio.
Se caprichava na interpretação vocal de suas músicas, Michel Jackson o fazia para melhor agradar aos ouvidos da própria dança. A garganta era personalíssima, porém os tímpanos a que primeiro se dirigia eram impessoais. Diga-se o mesmo das melodias, acordes, arranjos, instrumentos musicais, figurinos, pois todas essas coisas iam entrando pelos poros da dança para compor com ela uma só realidade avassaladoramente bela.
Era essa monolítica unidade do que há de mais corpóreo e mais etéreo que fazia a diferença. O multiverso a se transformar em universo (holisticamente falando), no desempenho cênico daquele homem frágil como porcelana e ao mesmo tempo forte como um rochedo.
E sob tal ambiência é que Michael Jackson regia uma infinitude de coisas para sacralizá-las no altar do seu incondicional amor pela dança. Ele próprio a ceder espaço para ela, mais e mais, como um gênio da lâmpada que se desprendesse da sua originária prisão para atender aos desejos daquela mulher que lhe arrebatava a alma (pois a dança nunca deixa de ser u'a mulher, a mais leve e curvilínea delas).
Assim é que a dança reconhecia em Michael o seu mais fervoroso cultor pós-moderno e se permitia apropriar-se dele. Tão possuidora dele que a um dado momento parecia que somente ela estava no palco. Uma dança entregue a si mesma, tão enlouquecida de beleza que já não havia nenhum dançarino a protagonizá-la.
Ela -e só ela- resplendia na objetividade absoluta da mais absoluta arte plástica. Por isso que Michael Jackson, inteiramente açambarcado pela dança, de repente já não fazia parte dele mesmo, porém dela. Dissolvia-se na sua própria dança, por havê-la conduzido ao esplendor quântico da partícula que se faz onda. Da matéria que se faz éter. Do mármore bruto que se faz "A Pietà" de Michelangelo.
Foram muitas, portanto, as fusões que se processaram na trajetória existencial de Michael Jackson. Fusão da mais espontânea dança de rua com a mais elaborada técnica da dança erudita. Fusão da cultura negra com a branca, revelada até mesmo no alisado dos cabelos renitentemente crespos e na progressiva brancura da tez de todo o corpo.
Fusão da graça virginal dos meninos com a mais séria compenetração profissional dos adultos. Da volubilidade assustada dos olhos com a tenacidade de um espírito capaz de todos os sacrifícios pela arte. Fusão, em suma, do dançarino e da dança. Dança em cujo coração o dançarino penetrou tão fundo como se chegasse, enfim, à sua definitiva casa interior.
Hoje, um ano depois de sua passagem física por este mundo, Michael Jackson como que sobrevive na pele do ar. Permanece com a sua dança hipnótica na pele do ar que a humanidade respira, com os demais seres viventes deste arrepiante, emocional planeta azul. "Thriller"...
CARLOS AYRES BRITTO é ministro do Supremo Tribunal Federal, poeta e membro da Academia Brasileira de Letras Jurídicas. Moacir Japiassu | comentários(0)
24/06/2010 08:56 CARLOS HEITOR CONY<
CACHORROS ATROPELADOS
RIO DE JANEIRO - Aprendi com os meus maiores que não se deve chutar cachorro atropelado. E, mesmo que não me tivessem ensinado regra tão elementar, acredito que por conta própria eu evitaria chutar não apenas os cachorros atropelados mas os caídos e vencidos na vida, pela simples e bastante razão de ser eu um deles.
No cenário público, incluindo a política, a administração, as finanças, as artes em geral e até o futebol, é comum alguém cair em desgraça, às vezes merecidamente, às vezes não.
De repente, surge uma ordem, vinda não se sabe de onde, na base do "tasca, tasca!" -e todos se esbofam para tirar uma lasca do infeliz, acrescentar um cascudo ou um pontapé no demônio de plantão.
Invocam-se causas e pretextos dos mais nobres para o linchamento. Diga-se que há personalidades especializadas em provocar as cóleras moralistas, políticas, administrativas, estéticas e clubísticas. Querem fazer, injustamente, do técnico Dunga a ratazana contra a qual vale qualquer coisa. Mesmo vencendo como está vencendo, a mídia o trata como um judas em Sábado de Aleluia.
Lembro o Manduca, irmão da Eneida de Morais, cronista ilustre e locomotiva da vida literária nos anos 60. Manduca era do Pará, fez tantas e tão boas que foi obrigado a migrar.
Passou anos no Rio e, um dia, apertado pela saudade de sua Belém natal, decidiu regressar à cidade onde passara a juventude. Acreditava que já tinham se esquecido de suas estripulias.
Quando saltou no aeroporto, comprou um jornal local. E lá estava a manchete na primeira página, em caixa alta: "Manduca volta para fazer das suas!".
Ele nem havia feito nada, nem das suas, nem dos outros. Tomou a decisão na hora. Comprou um bilhete e voltou para o Rio no mesmo avião. Moacir Japiassu | comentários(1)
24/06/2010 08:54 NEI DUCLÓS
LUZ DE LONGE
O homem lúcido sabe
que vai morrer
É só uma questão
de tempo
Essa clareza é seu único
sentimento
Não que seja escuro
o seu pensamento
Ou jogue pesado
contra a esperança
Ou pense o pior dos seus
semelhantes
Ou que seja só
porque se atormenta
Ou viva pelos cantos
como um doente
Ou seja alvo de crianças
por ser insano
Mas porque senta ao sol
e se aquece como plumas
que secam ao vento
E vê montanhas onde
imperam grutas
de silêncio
O homem lúcido não pede
esmolas frente ao templo
Nem arrasta as garras
afiadas pela guerra
Ou se afasta do amor
Ou dos sonhos extremos
Conhece apenas os limites
do entardecer, e o vôo
escasso de seus espantos
Sabe com os pés, e o rosto
que passa depressa
e não deixa herança
A não ser alguns versos
batidos no cais do porto
Que alimentam o fogo
de mendigos roucos
Lá onde amanhece, e a dor
se esquece por um instante Moacir Japiassu | comentários(0)
24/06/2010 08:54 NEI DUCLÓS
LUZ DE LONGE
O homem lúcido sabe
que vai morrer
É só uma questão
de tempo
Essa clareza é seu único
sentimento
Não que seja escuro
o seu pensamento
Ou jogue pesado
contra a esperança
Ou pense o pior dos seus
semelhantes
Ou que seja só
porque se atormenta
Ou viva pelos cantos
como um doente
Ou seja alvo de crianças
por ser insano
Mas porque senta ao sol
e se aquece como plumas
que secam ao vento
E vê montanhas onde
imperam grutas
de silêncio
O homem lúcido não pede
esmolas frente ao templo
Nem arrasta as garras
afiadas pela guerra
Ou se afasta do amor
Ou dos sonhos extremos
Conhece apenas os limites
do entardecer, e o vôo
escasso de seus espantos
Sabe com os pés, e o rosto
que passa depressa
e não deixa herança
A não ser alguns versos
batidos no cais do porto
Que alimentam o fogo
de mendigos roucos
Lá onde amanhece, e a dor
se esquece por um instante Moacir Japiassu | comentários(0)
17/06/2010 11:13 TALIS ANDRADE
A VESTIMENTA DE TRABALHO
Humilhante identidade
o consistente brim
adere às carnes do operário
como sobreposta pele
de grosseira contextura
Comprar rico terno
levar a namorada ao cinema
passear pela praça
disfarces não escondem
a discriminatória vestidura
Sobrecarga e fadário
o macacão azul de operário
estigmatiza o corpo
eternamente sujo
de graxa e tinta
(Talis in O Enforcado da Rainha) Moacir Japiassu | comentários(0)
10/06/2010 09:13 NOTA DEZ
A DITADURA GAY
(Por Carlos Apolinario)
Eu não concordei com a Prefeitura de SP quando ela proibiu as manifestações na avenida Paulista, mas lá manteve a Parada Gay
De alguns anos para cá, muito se tem falado sobre gays e lésbicas. Em todas as Casas Legislativas, e também no Executivo, têm sido aprovadas leis a esse respeito -e ainda existem muitos projetos em tramitação.
A Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou a lei nº 10.948/ 2001, que determina: se alguém for acusado de discriminar um gay em uma empresa, além da multa e do processo penal, o estabelecimento poderá ter cassada a licença de funcionamento. Ou seja, se a empresa tiver 200 funcionários e sua licença for cassada, todos serão punidos com a perda do emprego.
O movimento gay faz um intenso lobby para que o Congresso Nacional altere a lei nº 7.716, que define os crimes de racismo.
O objetivo das lideranças gays é que a legislação passe a punir também aqueles que têm uma opinião divergente das suas.
Se alguém falar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, ou disser que não concorda com a adoção de crianças por homossexuais, poderá ser processado.
E mais: caso essa lei seja alterada, não poderei falar da Parada Gay, nem mesmo fazer o discurso contra a instalação da Central de Informação Turística GLS pela Prefeitura de São Paulo, como fiz na Câmara Municipal. E não poderia nem escrever este artigo.
A Constituição Federal assegura o direito à liberdade de expressão.
Podemos criticar divórcio entre héteros, sindicatos, empresários, políticos, católicos, evangélicos, padres e pastores, mas, se falarmos contra o pensamento dos gays, somos considerados homofóbicos e nos ameaçam, até com processos.
Punir alguém por manifestar opinião divergente é próprio das ditaduras. Eu tenho a convicção de que já estamos vivendo numa ditadura gay, pois, na democracia, qualquer pessoa pode discordar.
Eu não concordei com a Prefeitura de São Paulo quando ela proibiu as manifestações na avenida Paulista, mas lá manteve a Parada Gay. A Paulista é uma via de acesso aos principais hospitais da cidade.
Por esse motivo, foi proibida a realização de eventos, entre eles a comemoração do Dia do Trabalho promovida pela CUT e a Marcha para Jesus. Não faz sentido manter a Parada Gay na Paulista. Por defender essa posição, sou acusado de ser homofóbico.
Também sou acusado de homofobia por me manifestar contrariamente à participação da prefeitura na criação da Central de Informação Turística GLS no Casarão Brasil, sede de uma ONG gay.
Não é correto usar o dinheiro público para dar privilégio a um grupo. O ideal é criar um serviço que atenda a todos os segmentos sociais, já que a Constituição diz que todos somos iguais perante a lei.
Respeito o gay e a lésbica, pois, como cristão, aprendi o significado e o valor do livre-arbítrio, mas discordo da exclusividade que o poder público dá à comunidade gay.
Essas medidas tornam os homossexuais uma categoria especial de pessoas. Do jeito que as coisas vão, daqui a pouco alguém apresentará um projeto transformando São Paulo na capital gay do país.
CARLOS APOLINARIO, vereador em São Paulo pelo DEM, é líder do partido na Câmara Municipal. Foi deputado estadual, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo e deputado federal.
Moacir Japiassu | comentários(2)
10/06/2010 09:09 JORNAL DOS JORNAIS<
CARTA DO MINISTÉRIO DA CULTURA A MOACIR JAPIASSU
Ministério da Cultura
Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura
Diretoria de Incentivo à Cultura
Coordenação-Geral de Prestação de Contas
Ao Senhor,
Moacir Japiassu Lins
Avenida Paulista Assessoria de Comunicação
Caixa Postal 067 - Cunha
São Paulo - SP
CEP: 12.530-970
Pronac: 97-2738
Projeto: Jornal dos Jornais
Tendo em vista a impossibilidade da entidade vinculada, Fundação Biblioteca
Nacional (FBN) proceder a análise técnica desse projeto, solicitamos apresentar em até l0(dez) dias, a contar do recebimento desta:
- 1 (um) exemplar da revista com formato de livro, produzido.
O solicitado deverá ser encaminhado para o seguinte endereço: Ministério da
Cultura - Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura - Diretoria de Incentivo à Cultura - Coordenação-Geral de Prestação de Contas - Esplanada dos Ministérios, Bloco "B" - Protocolo Geral - Brasília /DF - CEP: 70068-900.
Caso não seja apresentada o requerido no prazo estipulado, essa pessoa passará a situação de inadimplência e serão adotadas medidas com vistas à instauração de processo de Tomada de Contas Especial- TCE, junto ao Tribunal de Contas da União - TCU, conforme Artigos 44 e 46. Portaria MinC N.o 46/98 e IN/TCU N.o 56/2007.
Atenciosamente,
Edilberto Camelo de MeIo
Chefe de Divisão
Matricula SIAPE 81708 Moacir Japiassu | comentários(0)
10/06/2010 09:06 NÊUMANNE
DE TABELA
José Nêumanne Pinto
Sócrates bebe a bola
como a cicuta:
um gesto fatal.
Já Zico a vê
como o destino:
amplo e franzino.
Em ambos sobra a arte
de Gal Costa ao chutar um agudo
e de Benny Carter agarrando o sax.
Zico despe a dez
como um estigma
e a nota.
Sócrates veste a oito
como um fantasma
e a multiplica.
A ambos ocorre o sentimento
de Amelinha ao inspirar “Frevo Mulher”
e do almuadem Fagner que berra aboios.
Sócrates escoiceia a bola
como a perna fosse foice,
alavanca de mover o mundo.
E Zico a engole fundo
na távola redonda,
com fome do mundo.
De ambos fica a sabedoria
de a saber no prumo porque torta
e de caber na rima porque gorda.
Conforme Zico, o tempo da bola
emerge do passado, some no futuro
e é só presente.
No tiro de Sócrates,
o espaço entre a bola e a malha
não o mede a vã filosofia.
Para ambos, não é segredo
se Zé Ramalho administra o apocalipse
e Roberto Carlos repropõe “Ternura antiga”.
Brasileiro e Oliveira,
a grama é céu pra lua
de seresta e baile.
Coimbra e Antunes,
pássaro sem asa,
carrasco na vítima.
Com ambos vêm paramentos
que vertem a paixão do povo
em vinho de missa.
A espora de Zico
na ponta da bota
prolonga o urro da multidão.
O bisturi de Sócrates
é seu calcanhar de Aquiles
forrado de unguentos.
Por ambos espalham-se as bênçãos e cantos
como Bob Dylan é limo da pedra que rola
e John Lennon se assassina na própria luz.
Sócrates tem manobras
de espadachim,
o quinto dos três mosqueteiros.
Zico doma o jogo
como Stendhal:
com luto e fúria.
Só a ambos o gol sempre revela
o lugar imponderável
do encontro das paralelas.
(Solos do Silêncio: poesia reunida, Geração Editorial, São Paulo, 2002) Moacir Japiassu | comentários(0)
27/05/2010 09:00 SABOR DE HOMEM
Atualmente, temos mulher-melancia, mulher-jaca, mulher-moranguinho e tantos outros adjetivos desagradáveis à nossa classe.
Diante dessa nova moda, seguem algumas definições do que, digamos assim, representam as iguarias masculinas...
HOMEM-Camarão : só tem merda na cabeça, mas é gostoso e você come assim mesmo.
HOMEM-Caranguejo: dá trabalho, é peludo, mas é gostoso e você come assim mesmo.
HOMEM-Pão : tem sempre o mesmo gosto, mas você come todo dia.
HOMEM-Aperitivo: deve ser comido acompanhado de uma bebida,
HOMEM-Maracujá : você come e depois sente vontade de dormir...
HOMEM-Lagosta : só come quem tem dinheiro.
HOMEM-Caviar : você sabe que alguém come, mas não é ninguém que você conheça.
(Confira no Blogstraquis a lista completa de sabores.)
HOMEM-Bacalhau : você só come uma vez por ano.
HOMEM-Maionese-de-Fim-de-Festa : todo mundo te avisa pra não comer, mas você come, se arrepende e, depois, passa mal.
HOMEM-Rã : todo mundo já comeu, menos você.
HOMEM-Salada : é bonito, mas, quando você come, descobre que não é tão gostoso assim.
HOMEM-Marmita : é prático, não é lá essas coisas e você come rapidinho.
HOMEM-Cafezinho-de-Supermercado : você nem faz questão, mas, como é de graça, você aceita.
HOMEM-Jiló : é horrível, mas você conhece alguém que come.
HOMEM-Docinho-de-Festa : você come só pra passar o tempo.
HOMEM-Cogumelo-Venenoso : comeu, ta fudida.
HOMEM-Feijoada : você come e ele fica te enchendo o dia todo.
HOMEM-Miojo : em 3 minutos, ta pronto pra comer.
HOMEM-Coca-2 litros : dá pra seis
E os melhores...
HOMEM-BIS : você come, repete e nem se lembra das calorias!!!!
HOMEM-Coqueiro: pode trepar que não tem galho. Moacir Japiassu | comentários(2)
27/05/2010 08:57 BILHÕES&BILHÕES
África do Sul sonha com recorde de audiência na Copa: 30 bilhões
Fifa e Comitê Executivo inauguram centro de transmissão
Por Thiago Dias, Zé Gonzalez e Rafael Pirrho
Direto de Joanesburgo, África do Sul
O diretor-executivo do Comitê Organizador da Copa do Mundo, Danny Jordaan, e o secretário-geral da Fifa, Jérome Valcke, apresentaram à imprensa nesta sexta-feira o IBC (centro internacional de transmissão). Do local, ao lado do estádio Soccer City, serão geradas as imagens do torneio para os telespectadores ao redor do planeta. Desta vez, talvez para um recorde de audiência.
- Em 2006, na Alemanha, foram 26 bilhões de pessoas vendo a Copa. Agora queremos ter 30 bilhões - disse Jordaan.
A dupla participou de um tour com jornalistas pelo local, que deverá contar com cerca de 300 emissoras de televisão. Para montar a estrutura, foram investidos quase € 100 milhões (R$ 230 milhões), com 600 toneladas de equipamentos (parte comprada ou alugada na Europa) A estimativa é que até 5 mil pessoas circulem pelo IBC durante a Copa, trabalhando.
- Quando visitei o IBC da Copa de 2006 e das Olimpíadas de 2008 vi que teríamos que montar uma estrutura muito grande. E conseguimos entregar tudo a tempo. Temos que tomar cuidado com todos os detalhes. No restaurante, o cachorro-quente tem que estar quente. Se estiver frio, vão mandar uma foto do sanduíche frio para o mundo todo - brincou o diretor do Comitê. http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2010/05/africa-do-sul-sonha-com-recorde-de-audiencia-na-copa-30-bilhoes.html
Moacir Japiassu | comentários(0)
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